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sábado, 16 / janeiro / 2021

Cinzas como legado

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Marina Amaral, codiretora da Agência Pública

Seja qual for a duração do mandato de Bolsonaro, encurtado pelo impeachment ou esticado pela reeleição, já sabemos qual será o legado de seu governo: cinzas. O país que confiamos a ele nas eleições de 2018 já perdeu muito de sua principal riqueza – a vida -, dos 3 milhões de hectares queimados no Pantanal, 20% do bioma, às milhares de vidas humanas extintas, em todo o país, pelos erros de sua gestão na pandemia.

Tanto no Pantanal como na Amazônia, a origem das queimadas é criminosa; e, nos dois biomas, foi principalmente a mata que queimou, e não a “área humanizada”, como vem dizendo o encarregado de engambelar os investidores internacionais, o general Mourão. Na Amazônia, cerca de metade das queimadas são em áreas recém-desmatadas; no Pantanal, 95% do fogo incidiu em áreas de vegetação nativa, embora tenha se iniciado nas fazendas poupadas pela fiscalização – as multas por desmatamento caíram 71% no bioma.

Três parques estaduais, um parque nacional, uma área de proteção ambiental, e uma estação ecológica estão tomados pelo fogo no Pantanal e, ainda mais grave, quase metade das terras indígenas estão em chamas, como mostrou a excelente reportagem de Bruno Fonseca, Bianca Muniz e Raphaela Ribeiro que publicamos ontem (veja link abaixo). Os repórteres também destacaram que, apesar da intensidade e da duração do fogo, há apenas cinco brigadas de incêndio no Mato Grosso do Sul, quatro delas formadas por indígenas que trabalham sem os recursos necessários – o governo Bolsonaro cortou mais da metade (58%) das verbas destinadas às brigadas federais.

Bolsonaro, claro, minimiza a gravidade da devastação ambiental enquanto os apoiadores da política antiambiental chefiada por Ricardo Salles, notório disseminador de desinformação, espalham fake news culpando os que apagam o fogo por causá-lo. Por sua vez, o general Mourão, inventa conspirações políticas no Inpe para tentar desacreditar os números que registram nova alta do desmatamento na Amazônia. 

Uma inversão tão absurda quanto violenta, elementos que caracterizam as respostas do presidente e de sua turma à população desde o primeiro dia de seu mandato.

Com a economia em cacos, a natureza em chamas e a pandemia ainda matando mais de 700 brasileiros por dia, a violência promete se agravar nos próximos meses com as campanhas eleitorais. Uma pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos sobre violência contra políticos entre 2016 e 2019, apresentada ontem ao Conselho Nacional de Direitos Humanos, mostra um aumento recorde de atentados e assassinatos – 32 – no ano passado, contra 19 em 2017. Prefeitos, vereadores e pré-candidatos são o principal alvo – 92% dos casos. Só este ano já foram 27 atos violentos contra políticos municipais – de Tabatiguera, no Amazonas, a São João do Meriti, na Baixada Fluminense.  Também a democracia pode virar cinzas antes que a população, artificialmente polarizada, consiga reagir.

Imagem Capa: Pixabay

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